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sábado, 30 de junho de 2012

Dever de casa: méritos e problemas - Maria Cecília B. P. Horta

As expressões variam nas escolas brasileiras: "dever de casa", "tarefa de casa", lição de casa", "tema", "exercício". Denominam a tarefa que o aluno deverá realizar fora do horário escolar regular.
A polêmica, porém é a mesma. Seria essa a melhor forma de promover o aprendizado? Que tipo de atividade seria melhor privilegiar com esse objetivo? Alunos têm razão em reclamar que ficam cansados? Pais têm razão em reclamar que há responsabilidades demais sendo passadas para seus filhos? Professores têm razão em reclamar de alunos desatentos e relapsos para com os seus deveres?
Essas questões permeiam o cotidiano de qualquer escola. De saída, vale observar os resultados de uma pesquisa feita com alunos. A pergunta "Qual a opinião de vocês sobre o dever de casa?" foi respondida, pela grande maioria, com falas que denotam o reconhecimento de sua importância na "fixação dos conteúdos".
A literatura pedagógica corrobora esse ponto. Klingberg (ver obs.1) afirma que o processo didático se desenvolve durante a aula mas também em outras formas de organização da instrução e da educação". Entre elas, o dever de casa, como "trabalhos escolares ou tarefas de aprendizagem que o aluno resolve sem a ajuda direta do professor e fora do tempo de aula". De acordo com Klingberg, o dever de casa tem os mesmos objetivos didáticos da aula; a diferença está no fato de que as tarefas fora de sala de aula provocam nos alunos maior independência. Os deveres de casa são, portanto, um elemento importante do processo pedagógico, cumprindo, além disso, função social, ao servir de elo de ligação entre a escola e a casa.
A discussão começa quando analisamos as respostas dos alunos às perguntas seguintes: “Como o dever de casa poderia ser mais criativo?” e “O dever de casa ajuda a estudar?” Novamente houve concentração de respostas, mas desta vez a esmagadora maioria dos alunos expressou insatisfação em relação à forma das tarefas, o que , como conseqüência, acaba interferindo no resultado final que elas pretendem alcançar.
Captou-se no questionário um “sentimento geral” de que as tarefas poderiam ser mais criativas. Evidentemente, essa constatação deve ser analisada levando-se em conta a natural resistência do aluno à realização de tarefas suplementares e a sua vontade de que elas sejam sempre mais “fáceis” e “divertidas”.
De toda forma, é importante notar que é possível ao professor tornar os deveres mais estimulantes, de modo a provocar o empenho do aluno. É sempre desejável que o professor procure trazer a mais árida tarefa para a esfera de interesse das crianças e adolescentes, seja aplicando o tema a situações cotidianas e conhecidas do aluno, seja utilizando novos materiais, seja fazendo representações etc. Como indicação dos desejos dos alunos, elencamos as respostas dadas no questionário: atividades de pesquisa, trabalhos em grupo, atividades lúdicas, uso de pinturas, gravuras ou desenhos, palavras-cruzadas, gincanas, atividades ao ar livre e jogos.
Como lembra Martha Guanaes Nogueira, em Tarefa de Casa – Uma violência consentida? (ver obs.2), os educadores vêm privilegiando o ensinar, em detrimento do aprender. “A sociedade há muito requer da educação uma postura de vanguarda, novos parâmetros. A fim de poder cumprir tal tarefa, urge que os educadores redefinam seu papel na aprendizagem e, consequentemente, o do aluno também”, afirma a autora. Não estaria essa necessidade transparecida no pedido dos alunos por mais “criatividade”?
Ainda segundo Nogueira, como tem sido praticada na maioria das escolas, a tarefa de casa se enquadra na proposta da escola tradicional. “Na maioria das vezes, ela é realizada de forma mecânica, por obrigação ou necessidade, apenas para cumprir uma exigência escolar, como atividade sem significado para o aluno”.
A autora salienta a importância de se incluir o aluno no processo, subvertendo a idéia de que tudo parte e gira tão somente em torno do professor. O aluno pode, e deve, ser chamado a participar ativamente, num movimento de despertar de responsabilidade e interesse.
Afirma John Brubacher, em A importância da teoria em educação, citado por Nogueira: “O resultado da lição herbatiana (ver obs.3) é prefigurado desde o começo. É uma conclusão prevista”. É uma visão mecanicista do ato pedagógico que destoa dos objetivos primeiros desse mesmo ato: formar cidadãos conscientes e inseridos no mundo. A tarefa de casa, se é meramente reprodutiva, e não estimulativa, não contribui para formar os alunos para os desafios que a sociedade lhes impõe.
Portanto, em guisa de conclusão, a discussão não se concentra no questionamento da validade das tarefas de casa. Elas têm sua função na promoção aprendizagem de conteúdos e compõem uma unidade didática com a aprendizagem em sala de aula
Cabe, no entanto, a discussão sobre a forma e sobre a melhor maneira de fazer das tarefas um aliado do desenvolvimento cognitivo e social do aluno.

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